O orgulho pode deformar uma alma a ponto de impedi-la de perceber o óbvio
Valdis Grinsteins
É comum, hoje em dia, protestantes discutirem com católicos a respeito de Nossa Senhora. Curiosamente, os protestantes não têm mais como ponto preferencial, em matéria de debates, o Papado ou a Sagrada Eucaristia, mas Nossa Senhora e seus privilégios.
Tive de travar uma dessas discussões — por escrito, através de e-mails — que apresentou características diferentes de outras anteriores. Minha oponente pertencia a uma dessas seitas evangélicas mais recentes.
Além de protestante, ela era feminista. Começou sua discussão atacando a Igreja Católica porque não admite sacerdotisas, o que, segundo ela, era um sinal de desprezo pelas mulheres. A seita da qual era aderente permitia a pretensa “ordenação sacerdotal” para pessoas do sexo feminino.
A certa altura do debate, escrevi-lhe dizendo que uma prova do respeito da Igreja Católica pelas mulheres consistia justamente na devoção a Nossa Senhora, gloriosa tradição do catolicismo.
Tal argumento repercutiu como se fosse uma pedra atirada em caixa de marimbondos. Ela replicou com um intérmino e-mail, que poderia ser assim sintetizado: “Vocês católicos transformam uma mulher normal num ser tão superior, que a tornam antipática. E os católicos, o que é pior, fazem isso só para obter vantagens dela”. A protestante não negava que Nossa Senhora fosse boa, mas a considerava uma mulher comum, que não possuía nada que chamasse a atenção.
Pedi-lhe que me explicasse, então, por que Nossa Senhora afirma no Magnificat “Eis que, de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada. Porque fez em mim grandes coisas Aquele que é poderoso, e cujo nome é santo” (Luc. 1,48-49). Se Deus operou n’Ela grandes coisas, isso significa que o Criador fez algo que não é nada comum em todo o mundo. E por isso mesmo Ela é superior ao resto da humanidade.
Contradições do feminismo
A resposta foi insólita. Para a minha oponente, o que Deus fez de grande em Nossa Senhora foi tê-la criado mulher, e como mulher, Ela era exatamente igual a todas as outras.
Eu não quis contestar esse pseudo-argumento, tão gratuitamente discriminatório contra os homens, e sim chegar ao fundo do problema: Nossa Senhora não é igual às outras mulheres. Deus a fez Rainha dos Anjos e dos homens.
Solicitei então à protestante que explicasse a seguinte frase de Santa Isabel, quando Nossa Senhora a visitou: “Bendita és tu entre as mulheres” (Luc. 1,42). O texto não diz bendita entre o gênero humano, mas afirma especificamente que Ela, entre as mulheres, tinha sido abençoada por Deus. Logo, era detentora de um privilégio que as outras mulheres não detêm.
Sua réplica caracterizou-se pela ausência de espírito bíblico. Chamou-me de impertinente... Aproveitei seu desconcerto para lembrar-lhe que eu, como homem, não tenho a menor objeção em reconhecer que Nossa Senhora – uma mulher – é muitíssimo superior a mim. E que isso não me deixa humilhado, mas muito feliz. E parecer-me-ia uma situação triste para a humanidade, caso não houvesse uma criatura com as perfeições excelsas de Nossa Senhora. Afinal, Nosso Senhor Jesus Cristo é Homem-Deus, mas Nossa Senhora é pura criatura, e, assim, dignifica todo o gênero humano.
Lembrei-lhe também que, na Sagrada Escritura, numerosas mulheres são apontadas como modelos de virtudes: Santa Isabel, Ruth, Judith, Ester etc. Assim como há também mulheres indicadas como modelos de maldade, como Jezabel. Do mesmo modo, entre os homens, há os modelos de bem, e outros, de mal. Logo, a questão não é ser homem ou mulher, mas sim, ser virtuoso ou vicioso.
Fuga do tema principal
Como era de se esperar, a protestante não respondeu este argumento. Mas, desviando-se da questão, disse-me que eu não havia respondido a acusação de que nós católicos tínhamos devoção a Nossa Senhora só para obter favores e vantagens.
A esse respeito, convém observar que, para pessoas sem boa formação doutrinária, poderia parecer que os católicos descobriram um "jeitinho", através de Nossa Senhora, de obter favores do Céu. Na realidade, tudo se esclarece quando se estuda seriamente a doutrina da Igreja. Assim, vejamos este texto de São Luís Grignion de Montfort, o grande Doutor marial : “Respondo-lhes que é bem verdade que os mais fiéis servos da Santíssima Virgem, porque são seus grandes favoritos, recebem dela as maiores graças e favores do Céu, isto é, as cruzes; mas sustento que são também os servidores de Maria que levam estas cruzes com mais facilidade, mérito e glória”. (1)
Um verdadeiro devoto de Nossa Senhora entende o valor do sofrimento e pede sobretudo ajuda para suportar suas cruzes, sabendo que, através delas, advir-lhe-á o prêmio. Não se trata de implorar uma vida fácil e sem cruzes, mas sim, como Nosso Senhor no Horto das Oliveiras, de pedir que, se possível, “afaste de mim este cálice; porém, não se faça a minha, mas a vossa vontade” (Marc. 14, 36).
Nós católicos não julgamos que podemos carregar todas as cruzes e beber todos os cálices. Pelo contrário, conscientes de nossa debilidade, fruto do pecado original e de nossos pecados atuais, pedimos que, caso possível, o cálice dos sofrimentos seja afastado. Mas, se for vontade de Deus que o bebamos, pedimos forças para aceitá-lo e suportá-lo com ânimo. E confiamos que Nossa Senhora, como bondosa Mãe que é, auxiliar-nos-á a carregar as cruzes que nos advierem.
Na raiz de tudo, o orgulho
Velhacamente, respondeu-me a protestante com uma pergunta: “Você não se sente, como homem, diminuído por ter que suplicar o auxílio a uma mulher? E reconhece nisso a superioridade feminina?”.
Um bom filho nunca se sente envergonhado de pedir auxílio à sua mãe, respondi-lhe. E quanto à sua costumeira mania de reduzir tudo a uma espécie de “luta de classes” entre homens e mulheres, é preciso entender que Nossa Senhora é sobretudo um modelo a imitar. Santo Ambrósio ensina que “a vida de Maria é um espelho para todos”. (2)
Todo bom católico, homem ou mulher, considera Nossa Senhora, antes de tudo, como modelo. As mulheres podem perfeitamente vê-la como modelo de mãe, esposa ou filha. Mas os católicos, genericamente considerados, a vêem como modelo de pureza, obediência, humildade, enfim, de todas as virtudes.
Como a melhor defesa é o ataque, pedi à protestante que me explicasse sua atitude contraditória: sendo feminista, como podia ela pertencer a uma confissão religiosa que só reza a Jesus e não à Santíssima Virgem? Afinal, por que essa discriminação contra uma mulher?
Tais perguntas foram um santo remédio! Cessaram os e-mails, e a protestante não deu mais sinal de combate...
No fundo, o problema de todos os revolucionários é o mesmo: o orgulho. E o orgulho – o pior dos vícios, porque é do espírito – cega a pessoa e impede o funcionamento normal da razão humana, segundo as leis da lógica e até mesmo das normas do bom senso.
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